quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A ética começa entre nós

A busca de uma área de prevenção mais madura e bem definida passa obrigatoriamente pelo entendimento de que nenhuma área técnica pode ser de fato sólida sem que sejam observadas prioritária e rigorosamente as questões éticas que devem norteá-la.

Nos da área de segurança e medicina do trabalho ao longo dos anos temos enfrentado grandes problemas em relação a este assunto muito especialmente por não haver um código de ética único que abranja todos os profissionais que atuam nesta área e volta e meia nos vemos diante de conflitos que pouco ou nada contribuem para o crescimento e fortalecimento desta área . Infelizmente boa parte destes conflitos são alimentados pela imaturidade do corporativismo menor – ou seja a visão de que o interesse de alguns poucos deva ser vigente sem se pensar ou levar em conta os interesses coletivos ou da sociedade como um todo.

Distantes das questões mais comuns que alimentam tais conflitos e via de regra contribuem para o enfraquecimento da área como um todo e por conseqüência faz com interesses maiores sejam relevados a um segundo plano, gostaríamos de neste texto apresentar alguns pontos sobre uma outra espécie de conflito de origem mais recente mas que com certeza vai de encontro às questões essenciais de nossa área. Na verdade o que desejamos fazer e uma breve mas nem por isso menos importante reflexão sobre as relações entre profissionais de nossa área dentro da relação contratantes e contratadas – algo que cremos venha trilhando determinados caminhos devido à falta de analise mais profunda por parte de alguns profissionais que não entendem que uma das muitas linhas das relações éticas e aquela que liga um profissional ao outro. Como não acreditamos que ética possa ser algo parcial parece-nos importante e porque não dizer essencial refletirmos também sobre este aspecto com a intenção de chamar a atenção para determinadas pratica que embora possam ate ser rotineiras ou  mesmo terem sido incorporadas como vigentes de forma alguma devem ser alimentadas.

E importante dizer já neste momento de nosso raciocínio que analisar qualquer questão a partir apenas do prisma dos paradigmas contribui de forma decisiva para que a evolução – e porque não dizer – para que o processo de melhoria continua – expressão tão usada nos tempos atuais – fique comprometida. Portanto e preciso ir alem do que conseguimos entender ou alcançar de forma confortável e momentânea para visualizarmos o que pode e deve ser melhor, entendendo que o respeito e a base de qualquer relação saudável e a única forma para construirmos uma sociedade mais justa em todos os seus aspectos. Se não e isso que temos hoje de forma alguma devemos acreditar que não e isso que merecemos ter.

VOLTANDO UM POUCO NO TEMPO
A área de prevenção de acidentes tal como conhecemos como área técnica reconhecida e regulamentada e de certa forma bastante jovem. Isso não quer dizer que se trate de uma atividade nova – na verdade ate que se chegasse a regulamentação passamos por todo um processo que certa forma contribuiu para que a área tivesse o formato que hoje conhecemos e praticamos. E desta fase previa trouxemos muitas coisas de boa qualidade e também como seria de esperar muitos vícios e problemas que vez por outra ainda seguem vigentes. Da necessidade de fazer de outros tempos – sem muitos parâmetros ou bases – veio por exemplo a criatividade marca registrada da prevenção brasileira – ao mesmo tempo veio também a falta de padronização de conceitos e formas e muito disso segue ate hoje fazendo com que as idéias e formas adotadas tenham o valor de norma e que passem de gerações para gerações de profissionais. E comum encontrarmos situações onde empresas adotam certos procedimentos que não condizem com que a legislação define e que isso seja tratado com normalidade. Isso faz com que a área não ganhe corpo e mais ainda que os leigos não assimilem que prevenção tem conceitos e bases comuns o que favorece muito o desenvolvimento da área como um todo tanto para os profissionais como especialmente para os usuários – tanto empresários como trabalhadores. E importante que façamos cada vez mais uma grande esforço na direção da padronização evitando os invencionismos e praticando os padrões – obviamente adaptados a realidade de cada local de trabalho e lembrando que os especialistas e a sociedade como um todo ganham pela formação de um todo que torne-se conhecido e possa servir como base para um trabalho consistente e bastante difundido. Prevenção de acidentes e uma área técnica e como tal – para que ela possa ser exercida e principalmente desenvolvida – seus especialistas devem conhecer e aplicar seus preceitos – valendo-se das normas e das técnicas como base para aquilo que pode ser arte – mas não terá qualquer validade técnica se for apenas isso.

Um outro ponto que merece atenção e analise diz respeito a improvisação – que bem sabemos e essencial especialmente num pais onde a falta de recursos e uma realidade. No entanto, mesmo para improvisar temos que levar em conta critérios ate porque não atuamos isolados e menos ainda podemos acreditar que nossas ações não estejam sujeitas a reações e principalmente sanções quando os resultados – por melhores que sejam as intenções – sejam contrários do que os planejados e esperados e por conseqüência causem danos. Assim longe deve ficar o tempo onde os conceitos pessoais estão acima das bases legais e conceituais da área.

Vale lembrar ainda que a prevenção de acidentes no Brasil e uma área de certa forma com bastante regulamentação – que em alguns casos chega a detalhes que na nossa forma de ver passam dos limites que deveriam estar no ponto onde começa a liberdade de gestão das empresas – mas apesar disso muitas empresas e profissionais insistem em criar regras próprias o que certa forma podem contribuir para a prevenção mas a maior parte do tempo desfiguram a área como um todo  geram conflitos entre profissionais. Alias e este o tema central deste texto e e dele que trataremos a seguir.

EU, ELES E NOS
De tudo e antes de mais nada precisamos ter uma certeza; o que deve reger as relações em termos de prevenção de acidentes são as normas e os conceitos técnicos e não os desejos desta ou daquela empresa ou destes ou daqueles profissionais. Assim as relações ficam mais claras, objetivas e éticas. Obviamente as adições e exigências das empresas ou dos seus corpos técnicos tem vez e espaço dentro deste contexto – mas se isso  vier a ocorrer deve ser seguido de meios para que possam ser entendidos pelos demais profissionais. Isso na pratica quer dizer por exemplo que se a empresa onde você atua entende por bem exigir que um PPRA – que na NR 9 define-se claramente que abrange apenas riscos físicos, químicos e biológicos – deve também contemplar riscos ergonômicos e de acidentes – tal adição deve ser claramente expressa em memoriais, contratos, manuais ou qualquer outro meio que permita aos demais profissionais conhecerem suas exigências. O que não pode ocorrer e que as exigências existam e os profissionais não as conheçam e em razão disso trabalhos feitos por estes profissionais – trabalhos que com atendem a legislação – sejam devolvidos como se fossem incorretos ou incompletos, gerando desconforto e problemas aos colegas. Em uma área técnica – volto a repetir – as praticas são baseadas no vigente e conhecido e não nas exceções. Portanto, em respeito ao trabalho dos demais profissionais tenha clareza nas solicitações – agindo com os demais com a mesma lisura com se espera ser tratado.

Como dizemos neste texto em parte anterior e importante ter consciência de que o que norteia a elaboração de trabalhos em nossa tem por base o que poderíamos denominar aqui de conhecimento universal e qualquer coisa que fuja disso merece pelo menos uma orientação previa e sempre que possível – já que estamos falando da relação entre profissionais de uma mesma área – apoiada pelo dialogo com justificativas plausíveis – conduzindo a relação para o campo do respeito e ética – deixando longe afirmativas grosseiras tipo E ASSIM PORQUE EU QUERO QUE SEJA, AQUI MANDO EU, ETC. Atitudes deste tipo alem de demonstrarem a falta de estrutura do profissional deixam claras evidencias da falta de conhecimento típica dos que evitam o dialogo técnico e que agem assim muitas vezes perdem imensas oportunidades para melhorarem seus sistemas e por conseqüência seguem onerando as empresas nas quais atuam e contribuindo para que a prevenção seja ruim e as vezes exagerada.

Essencial também entender que independente da posição que se ocupe ou do lado da relação em que se esteja – antes de mais nada – todos são profissionais – verdade que alguns com melhor formação, com mais ou menos experiência – mas em comum todos merecem e devem ser respeitados levando em conta as praticas e costumes da boa educação. Um profissional que não respeita o outro certamente não entendeu ainda que a construção de uma área técnica passa pelo reconhecimento primeiro entre os iguais ou similares. Agir com rigor não quer dizer que se pode agir com indiferença ou de forma desrespeitosa, cumprir objetivos não quer dizer que esta permitido passar por cima de outras pessoas – de forma alguma não so na área de prevenção mas em qualquer relação entre pessoas ou partes podemos tomar como base a idéia que os fins justificam os meios.

Não importa de que lado da mesa você esta (ate porque não se sabe por quanto tempo ali você estará) importa a consciência profissional e ética em relação ao colega prevencionista. Não importa que naquela ocasião você seja o especialista da contratante ou da fiscalizadora – importa que e o respeito devido ao colega de área esta acima de qualquer situação ou relação.

Estas palavras valem muito especialmente para certos colegas nossos que se julgam donos absolutos da verdade e mal notam que parte dos grandes problemas que tem em suas gestões fogem a qualquer analise formal  possível porque estão contidas na arrogância com que gerenciam. Por sua forma de ser inviabilizam relações construtivas e importantes para uma área onde a renovação e reavaliação de praticas e conceitos e essencial para que verdadeiros elefantes brancos tornem-se melhores. Vale aqui perguntar se um profissional que não respeita outro profissional tem a capacidade de respeitar os demais trabalhadores com os quais não tem qualquer tipo de vinculo mais direto.

Nos – profissionais da prevenção – que em algumas oportunidades temos sido críticos em relação as condições de trabalho das terceirizações talvez esqueçamos que quando se trata da relação primeiro-terceiro dentro de nossa própria área esta precariedade pode não ser igual a que vemos nas condições do chão de fabrica ou piso de obra – mas podem trazer dissimuladas agentes agressivos mais sutis. Talvez fosse de grande utilidade estender de forma ampliada a idéia que o trabalho do prevencionista terceirizado não e igual ao nosso ate pelas questões próprias deste tipo de trabalho, que se no nosso dia a dia encontramos dificuldades apesar das relações mais estáveis da nossa realidade – não e difícil imaginar o que vivencia um colega que faz a mesma atividade em condições via de regra mais desfavoráveis. Se desejamos que esta relação tenha frutos melhores comecemos então pelo apoio ao trabalho e não tenhamos a postura de meros censores ou fiscalizadores – já que tal postura não auxilia em nada o desenvolvimento da prevenção. Tenhamos também um comportamento sensato que nos permita entender que atuando em empresas de grande porte ou que ao menos apóiem de alguma forma seus SESMT – estamos sempre diante de oportunidades de atualização, freqüentamos grupos de trabalho e eventos profissionais – o que de certa forma nos permite a possibilidade de conhecermos e praticarmos uma prevenção mais avançada – mas que não e esta a realidade da imensa maioria dos prevencionistas. Muitos dirão que empresas não são escolas e que por isso querem ali o que há de melhor em termos de profissionais – certamente não pensavam assim quando buscavam suas primeiras oportunidades: alem de anti éticos são esquecidos.

Poderiam ser muito prazerosas, construtivas e úteis relações entre SESMT – houvesse respeito e maturidade. Todos ganharíamos se os que sabem ao invés de posicionarem de forma arrogante e distante – se propusessem a coerência com o discurso que afirma que acima de tudo prevenção e um processo educativo – tambem entre profissionais.

O DIA A DIA DO DESRESPEITO
Em tempos onde ganha forca as questões relativas ao assedio moral e psicológico e importante que não vejamos isso como uma possibilidade apenas entre chefias e subordinados – antes disso como uma triste realidade entre profissionais de uma mesma área as vezes apenas com diferenças nas graduações. Se achamos absurdo que um chefe chame um subordinado de burro, como podemos achar normal que um colega diga ao outro que o trabalho que ele apresentou e um lixo ‘’ Não queremos dizer aqui que o simples fato de um trabalho ter sido feito por um especialista torne obrigatório que ele seja aceito – isso seria irreal. No entanto, o não aceitar deve ocorrer com base em normas de relação – alias de bom grado planejadas e formalizadas levando em conta o respeito devido.

Atenção mais do que especial as posturas éticas nas atividades que envolvem relação direta – cotidianas ou não. O discordar não deve ser uma porta sempre aberta para que isso seja feito de forma que não observe os bons preceitos da relação – as exigências que superem o conteúdo das normas deve ser apresentando de forma respeitosa levando em conta que independente do porte das empresas envolvidas – ocorre ali uma relação entre empresas – e o mesmo ocorrendo entre os profissionais já que nos parece que seja direito compreender o que devo executar.

Parte também da ética diz respeito a pontualidade e disponibilidade com os profissionais vendo no outro e propriciando a este o mesmo tratamento que acreditamos merecer independente da relação empresarial na qual estamos envolvidos. E fácil entender que se nem entre nos há respeito como os demais irão nos tratar. Isso diz respeito também a por exemplo certos processo de integração em determinadas empresas onde muitas vezes o profissional de sst e obrigado assistir treinamentos que por sua formação em nada agregam conhecimento ou valor, quando no mesmo momento poderiam estar reunidos com o SESMT local vivenciando uma integração mais importante para a finalidade.

Resumindo há necessidade e em algumas empresas – urgência quanto a avaliação e revisão das relações entre colegas prevencionistas. Não podemos deixar que diferenças banais e lados distintos de mesas mudem as formas de relação entre profissionais que tem a mesma formação e objetivos. Isso e ruim para nossa área, para o desenvolvimento da prevenção e para o todo da Segurança e Saúde no Trabalho.

Cosmo Palasio de Moraes Jr

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